sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A Formação das lendas

A formação das lendas nas sociedades primitivas.
Os primatas vivem em pequenos grupos. Formam amizades próximas, caçam juntos e combatem ombro a ombro contra inimigos. A sua estrutura social tende a ser hierárquica.
O macho alfa esforça-se para manter a harmonia social em seu bando. Os membros de uma coligação passam muito tempo juntos, partilham alimentos e ajudam uns aos outros em caso de dificuldades. Existem limites claros quanto a dimensão dos grupos que podem ser formados e mantidos desta forma. Para que um grupo funcione em harmonia, todos os membros têm que se conhecerem mutuamente. Dois chimpanzés que nunca se cruzaram, nunca combateram juntos e nunca participaram nos cuidados mútuos, não saberão se podem confiar um no outro.    Em condições naturais, um bando de chimpanzés típicos, consiste  em cerca de 20 a 50 indivíduos. À medida que o numero de membros aumenta, a ordem social torna-se instável, acabando por conduzir a uma ruptura e a formação de um novo grupo por parte de alguns animais.
É provável que padrões semelhantes tenham determinado a vida social dos primitivos seres humanos, incluindo o Homo Sapiens arcaico. Os seres humanos, como os chimpanzés, têm instintos sociais que permitiram nossos antepassados formar amizades e hierarquias, bem como caçar e lutar em conjunto. No entanto, tal como nos instintos sociais dos chimpanzés, os seres humanos estavam adaptados, apenas, a grupos pequenos e íntimos. Quando o grupo crescia demasiadamente, a ordem tornava-se instável e o bando dividia-se. Mesmo que um vale particularmente fértil pudesse alimentar 500 indivíduos, era impossível a convivência. Como poderiam concordar em relação à escolha de um líder, a quem caçar onde ou quem acasalar com quem?
No rescaldo da evolução cognitiva, a comunicação através da fala, ajudou o Homo Sapiens a formar bandos maiores e mais estáveis. No entanto, até a comunicação tem seus limites. Estudos sociológicos revelaram que o tamanho natural máximo de um grupo único, comporta cerca de 150 indivíduos. Abaixo deste limite, comunidades e unidades militares conseguem manter-se tomando por base o conhecimento e a troca de informação. Não há qualquer necessidade de postos formais, títulos e livros de leis para manter a ordem. Um pelotão de 30 a 100 soldados pode funcionar bem com base nas relações íntimas, com um mínimo de disciplina formal. No entanto, se o limite de 150 indivíduos for ultrapassado, as coisas não funcionam assim. Não se pode liderar uma divisão com milhares de soldados da mesma maneira que se lida com um pelotão.
Como foi que o Homo Sapiens conseguiu ultrapassar este limite crítico e fundando cidades com dezenas de milhares de habitantes, impérios que ditaram os destinos de milhões de seres?... O segredo reside, provavelmente, no surgimento da ficção.  Um grande numero de estranhos consegue cooperar com êxito graças à crença em mitos comuns. Qualquer cooperação humana em larga escala, seja um estado moderno, uma igreja medieval, uma cidade antiga ou uma tribo arcaica, está enraizada em mitos comuns que existem apenas na imaginação coletiva de seus integrantes. As igrejas estão enraizadas em mitos religiosos comuns. Dois católicos que nunca se conheceram podem, ainda assim, partir juntos para uma cruzada porque ambos acreditam que Deus encarnou e se fez homem, deixando-se crucificar para os redimir dos seus pecados. Centenas de evangélicos desconhecidos podem se juntarem numa missão de arrecadação de fundos para construir uma igreja acreditando que esta casa de oração será visitada por seu Deus. Os estados estão enraizados em mitos nacionais comuns. Dois Sérvios que nunca se encontraram podem arriscar as vidas porque ambos acreditam na existência da nação Sérvia, na pátria Sérvia, na bandeira Sérvia. Os sistemas judiciais estão enraizados em mitos legais comuns. Dois advogados que nunca se cruzaram podem, ainda assim, combinar esforços para defender um estranho porque acreditam na existência de leis, justiça e direitos humanos.
No entanto, nenhuma destas coisas existe fora das histórias que as pessoas inventam e contam entre si. Não há deuses no universo, não há nações, não há direitos humanos, não há leis e não há justiça fora da imaginação coletiva dos seres humanos.

As pessoas compreendem facilmente que os primitivos tenham cimentado sua ordem social acreditando em fantasmas e espíritos juntando-se a cada lua cheia para dançarem ao redor de uma fogueira. Mas não conseguem entender por que motivos, nossas instituições modernas funcionam exatamente da mesma forma. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A Supersimetria da criação

_Conta uma tradição chinesa da época Xia (2205-1782), que apareceram dez sóis em nosso ambiente cósmico causando súbitas mudanças. Os povos da terra sofreram, terrivelmente com o calor e, por isso o Imperador ordenou ao seu melhor arqueiro que abatesse os sóis extras. O arqueiro foi recompensado com uma pílula  que tinha o poder da imortalidade mas sua esposa a roubou. Por esta ofensa ela foi exilada imóvel no firmamento transformando-se na lua.
_Segundo esta lenda, o primeiro ser vivo foi P’na Ku, que cresceu durante 18 mil anos dentro de um ovo cósmico. Quando se chocou, a casca acima dele se tornou o céu, enquanto a casca abaixo tornou-se a terra. Os opostos da natureza foram separados como masculino e feminino, úmido e seco, claro e escuro, yin e yang. P’an Ku se despedaçou e suas feições se tornaram o mundo natural. Seus membros se transformaram em montanhas, seu sangue em rios, sua respiração no vento, sua voz nos trovões, seu cabelo na grama e seu suor na chuva. Seu olho esquerdo se tornou o sol e o direito a lua.
_Antes do início dos tempos havia Nu, o oceano primordial do caos. De um ovo na superfície de Nu surgiu uma divindade referida como Amon-Rá. Amon-Rá produziu filhos e filhas divinos. As lágrimas de Amon-Rá formaram a humanidade. Seu neto, o Deus Osíres se casou com uma sua irmã Ísis que descobriu a identidade de Amon-Rá, o que permitiu que Osíres tomasse seu lugar como rei. Osíres mostrou aos humanos como obter comida e vinho, enquanto Ísis ensinou-lhes a tecer e fazer medicina. Set, irmão de Osíres, que representava o mal, prende-o em um baú lançado ao Nilo.  Ìsis recuperou o corpo dilacerado de Osíres exceto o pênis que fora comido por um peixe. Ela criou um pênis de barro e soprou a vida de volta para Osíres através dele.  Osires viveu apenas o suficiente para engravidar Ísis do seu filho Hórus. Para manter seu filho a salvo de Set, Ìsis o colocou num cesto para flutuar no Nilo, inspirando a história de Moisés.
_No princípio o Deus Amma, o sol e a lua, na forma de dois potes, jogou pedaços de barro no espaço para criar as estrelas e uma bola de barro para criar a terra. Sentindo-se só, Amma se aproxima da terra e fertiliza-a para gerar filhos. Entretanto, uma colina vermelha causou um defeito na gestação. Em vez de gêmeos, nasceu um chacal que trouxe inúmeros problemas para Amma. Esta lenda explica a circuncisão feminina realizada por diversas tribos africanas.
_A bíblia conta a lenda de quando Josué rezou para que o sol parasse em seu trajeto de forma que a luz do dia se prolongasse, permitindo a ele terminar a batalha contra os Amoritas em Canaã. Segundo o livro de capa preta, o sol ficou parado por um dia. Atualmente sabemos que isto significa que a terra ficou sem rotação por doze horas. Se a terra fosse imobilizada, de acordo com as leis de Newton, tudo que não estivesse preso a ela, continuaria a se mover na sua velocidade original que é de 1.800 km/h no Equador. Um preço muito alto para um pôr do sol prolongado. Por outro lado, o universo não pode ser rebobinado. As leis matemáticas da física moderna não permitem o desvio de seu curso inexorável, para o futuro.
Mitos de criação como estes são tentativas de responder a questão feita pela ciência; Por que há um universo, e por que o universo é do jeito que é.
As lendas têm significados diferentes. As citadas aqui, umas são poéticas, outras são românticas e outras são mentiras enganosas que perduram. O universo é compreensível por que é governado por leis científicas e seu comportamento pode ser descrito como um modelo matemático. A primeira força descrita em linguagem matemática foi a gravidade. A lei da gravitação universal foi descrita por Newton e publicada em 1687  dizendo que todo objeto no universo atrai qualquer outro com uma força proporcional à sua massa. A ideia de que existem leis naturais ,suscita questões semelhantes àquelas pelas quais Galileu Galilei foi condenado por heresia em 1637.
A humanidade parece ter reconhecido que o universo não foi uma criação recente ou os seres humanos  têm existido apenas durante uma fração menor da história cósmica. Isto porque nossa espécie tem aprimorado tão rapidamente seu conhecimento tecnológico que, se existisse a milhões de anos, já teríamos alcançado a singularidade. A menos que a cada limite da evolução, a sociedade entra em colapso e começa tudo novamente. Inclusive a criação.

Dissocia-se o universo da criação humana, mesmo que o homem seja criado à semelhança de alguém e pode ser destruído por seu criador. O universo se mantém simétrico com outros universos.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A descoberta da ignorância

Os biólogos dizem que o DNA é a base molecular para a reprodução sexual. Cada um de nós assemelha-se aos nossos pais porque herdamos um complemento de seu DNA, mas não herdamos o caráter, as atitudes nem sua religiosidade. Para isto somos ensinados, treinados e direcionados.
O animal humano não consegue preservar a informação crítica à sua gestão simplesmente através da realização de cópias de seu DNA e de sua transmissão à progenitura. É necessário realizar um esforço constante para sustentar suas leis, seus costumes, seus procedimentos e sua religiosidade.
As grandes sociedades de algumas espécies são estáveis e resilientes porque a maioria das informações que necessitam estão contidas em seu genoma. A larva de uma abelha melífera pode crescer e se transformar numa rainha ou numa operária, dependendo do alimento que recebe. No seu DNA está contido o programa necessário para os dois papéis, seja a etiqueta real ou a diligência proletária. As colmeias podem ser estruturas sociais muito complexas contendo diferentes ações trabalhadoras;  coletores. transportadores, enfermeiros e faxineiros. No entanto nenhum pesquisador foi capaz de encontrar um advogado nem um professor. As  abelhas não precisam de advogados, porque não existe o perigo de tentarem contornar a constituição da colmeia negando às abelhas da limpeza o direito à vida, à liberdade ou à procura da felicidade e nem de professores para lhes ensinar algum ofício.
A maioria das pessoas não querem aceitar que a ordem que gerencia suas vidas é imaginária, mas, de fato, cada pessoa nasce com uma ordem preexistente e seus desejos são informações impostas desde o seu nascimento. Tendo por base as ordens sobre humanas, a religião estabelece normas e valores que considera vinculativos. Muitos ocidentais acreditam em fantasmas, fadas, reencarnação e sobrevida após a morte. Mas estas crenças não são uma fonte de padrões morais. Dois milhares de anos de lavagem cerebral monoteísta levaram os ocidentais a verem o politeísmo como uma idolatria ignorante e infantil.
O ponto de vista fundamental do politeísmo que o difere do monoteísmo, é que o poder supremo que governa o mundo é vazio de interesses e preconceitos, e, como tal, não se preocupa com os desejos mundanos. É inútil pedir a estas potências a vitória na guerra, saúde ou chuva, porque do ponto de vista global, não faz diferença se um reino em particular ganha ou perde, se uma pessoa recupera ou morre. Os gregos não desperdiçavam sacrifícios com o destino.

A única razão para abordar o politeísmo como suprema potência seria para renunciar a todos os desejos e abraçar o mau juntamente com o bom, aceitar a derrota, a pobreza, a morte e compreender que, de sua perspectiva eterna, todos os desejos e medos mundanos eram fenômenos insignificantes e efêmeros.