quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Agrotóxicos


Às vezes não quero acreditar que vivo numa sociedade de analfabetos funcionais. Estou estarrecido assistindo a uma novela de grande audiência em que um personagem graduado numa universidade francesa prega a agricultura orgânica de subsistência em detrimento à agricultura industrial. O nome “Agricultura Sintrópica” é mais um verbete dos filhos da revolução verde improdutivos. O sistema há muito já é usado na Amazônia por pequenos produtores para recuperar nascentes, áreas degradadas e matas ciliares. Consorciando agricultura familiar, árvores frutíferas, apicultura e preservando ou plantando vegetação regional protegendo o ambiente. Muito válido para micro agricultores e assentados. Ernst Gotsch não descobriu a pólvora.  
Ora!..Ora!.. O autor deveria ter se informado sobre o assunto, antes de  difundir suas convicções políticas de esquerdista. Os agrotóxicos salvaram florestas e bilhões de vidas, e, o homem que mais ajudou a amenizar a fome das pessoas, não foi um político comprometido com o povo nem um líder religioso benevolente. Trata-se do químico alemão FRITZ HABER, cientista-chefe do departamento de armas químicas da Alemanha durante a 1ª Guerra Mundial. HABER defendia o uso do gás cloro nas trincheiras coordenando um ataque em Ipres, na Bélgica onde a armas químicas alemãs mataram quinze mil soldados franceses e canadenses em abril de 1915.  Mas se deve a este homem uma invenção que transformou o mundo.
Em julho de 1909, num laboratório montado pela Basf, ao sul da Alemanha, ele misturou hidrogênio com nitrogênio do ar  numa câmara a 600° de temperatura e pressão 200 vezes a atmosférica ao nível do mar conseguindo produzir amônia. Haber produziu poucos centímetros cúbicos de amônia, menos que um pote de Danoninho.
Para entender a importância deste descobrimento é necessário lembrar como funcionava a agricultura, até então. As plantas não são capazes de retirar o nitrogênio do ar. Elas o absorvem, na terra, através das raízes. A cada colheita o solo se torna mais pobre em nitrogênio, que tradicionalmente  é remediado com esterco, que servia para recuperar o solo pobre em nitrogênio. Mas era necessária uma quantidade mastodôntica para alcançar algum efeito. Não havia pesticidas e fertilizantes sintéticos e os agricultores evitavam as pragas e doenças das plantas com técnicas milenares. As famílias plantavam e colhiam com as mãos ou ferramentas rudimentares, fazendo com que um hectare lhes rendessem 700 kg de trigo, ou 1/5 do que rende hoje. Este mundo idílico e ecologicamente correto tinha um resultado,...a fome.
A fome matou 10% dos ingleses entre 1315 e 1317, um terço dos russos entre 1601 e 1603, 10% dos franceses e noruegueses no final do século XVII e 20% dos irlandeses 1845 e 1849. Hoje a produção de nitrogênio é de 143 milhões de toneladas/ano. Para se obter 1kg de nitrogênio é necessário 1,5 tonelada de esterco de galinha, que é o mais rico em N. Ou seja... Para se obter um saco de fertilizante químico industrial serão necessários 22.000 kg de merda.
Com a ascensão de Hitler, Franz Huber se mudou para a Inglaterra e não viu uma de suas criações, o gás Ziklon A, criado para eliminar insetos que infestavam celeiros de trigos se transformar no gás da câmara de morte nazista.
Por onde passou, a combinação de fertilizantes, defensivos, máquinas e sementes selecionadas multiplicaram colheitas. No século XX, enquanto a população humana cresceu 3,7%, a produção de alimentos foi multiplicada por sete. O fato é que a agricultura evitou o desmatamento de milhares de hectares de floresta por ser possível produzir bem mais na mesma área. Cerca de 3 bilhões de pessoas, quase a metade da população humana, teria pouco o que comer caso a agricultura orgânica ainda predominasse.
 Não é à toa que as maiores crises de fome ocorridas no século XX foi fruto de política conduzida por analfabetos funcionais. É o caso da África onde as novas técnicas sofreram resistências de governos apegados á ideias de agricultura de subsistência. Na Etiópia, o governo comunista de Haile Selassie fez tudo o que podia para boicotar a importação de fertilizantes, tabelou preços e amontoou camponeses em fazendas estatais e proibindo o cultivo privado tornando a agricultura mais improdutiva do que era. O sistema feudal foi abolido com a queda de Salassie em 1975 e a perda de mais de 40.000 vidas extintas pela fome. A população aumentou em índices superiores ao da produção de alimentos e quando veio a seca de 1983 a 1985 não havia estoque de alimentos e 400 mil etíopes morreram de fome.  Na China houve a maior crise de fome do século XX. Durante o governo comunista de Mao Tsé-tung que, também, era contrário á fertilização e defensivos químicos para aumentar a produção agrícola, colheu 15 milhões de mortos pela fome entre 1958 e 1961. Mao Tsé-tung só abriu o olho em 1972 durante a visita de Richard Nixon. Na comitiva americana estava um executivo da KELLOGG e os chineses adquiriram cinco grandes fábricas de fertilizantes. Alguns anos depois a China já era a maior produtora de fertilizantes químicos do mundo.
Agricultura de subsistência ou orgânica é para pequenos produtores para seu próprio consumo ou venda em baixa escala.
Espero que os ecologicamente corretos ou filhos da revolução verde se lembrem de agradecer aos cientistas ambiciosos e grandes fazendeiros todas as vezes que saborearem um cereal, leite ou qualquer produto agrícola e respirar aliviado por viver numa época em que a agricultura orgânica não impera no mundo.   

         Obtive várias fontes de informações.  Geoffrey Blainey,  Yuval Harari, Wikipédia e principalmente Leandro Narloch.