quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A Fé

Existe diferença entre a fé e a crença ?
O termo hebráico "émûná" tanto pode ser traduzido por "ter fé", "acreditar" ou por "confiar". A Septuaginta, tradução grega da bíblia hebráica, retém o mesmo significado no termo "pisteuein", tendo este equivalente grego adotado no novo testamento.
No livro dos Hebreus 11.1, a fé é definida como "garantia das coisas que se esperam e certeza daquelas que não se vêem".Lida de forma correta e desapaixonada, esta passagem parece fazer da fé um sentimento inteiramente autojustificado.Induz o fiel a acreditar numa coisa que ainda não aconteceu (coisas que se esperam), ou para as quais não existem provas (daquelas que não se vêem), seja uma confirmação da sua verdade ("a garantia e a certeza").
A peste negra atingiu París no mês de junho de 1348 e assolou a cidade por 18 meses.O Rei Felipe VI pediu à faculdade de medicina da Universidade Católica de París uma explicação para o desastre.De imediato, os professores cristãos diagnosticaram que uma perturbação nos céus havia levado o sol a superaquecer os oceanos próximos da Índia e que as águas começaram a emanar vapores nocivos.
Em tempo, a faculdade de medicina oferecia uma variedade de remédios possíveis.Um caldo de Label Rouge (galinha caipira do pescoço pelado) temperado com pimenta moída, gengibre e cravo da Índia seria uma boa ajuda.Porco, carne gorda, patos e aves de capoeira deveriam ser evitados.O azeite e o banho poderia ser fatal e os homens deveriam preservar a castidade.
O Rei Felipe VI, preocupado com a ira divina promulgou um decreto contra a blasfêmia. Pela primeira ofensa se cortava um lábio do blasfemo,uma segunda lhe custava o outo e uma terceira, a língua.As autoridades eclesiásticas da cidade reagiram com uma série de medidas severas para conter a propagação do pânico. Ordenaram que os sinos cessassem de dobrar, proibiram o uso de vestes pretas, a aglomeração de mais de duas pessoas em funerais, manifestação pública de pezar. E para aplacar a ira divina, baniram o trabalho aos sábados, o jogo, a prostituição, os juramentos e exigiram a todos que viviam em pecado que se casassem imediatamente.
Um Abade de Tournai registrou um grande aumento no número de casamentos. O jogo declinou de tal maneira que os fabricantes de dados passaram a dedicar-se ao fabrico de rosários.A peste matou em París, cerca de 25.000 cidadãos que foram enterrados em grandes valas nos arredores das cidade.Ninguém amaldiçoou a pulga nem culpou os ratos e a Santa Penicilina ainda não havia sido inventada.Haja fé!...

A Crença

Não é necessário ter uma formação especial em psicologia ou em neurociência para saber que os seres humanos são relutantes em mudar de opinião.
Suponhamos que eu acredito na existência de Deus e que algum impertinente me pergunte porquê. Esta pergunta exige uma resposta do tipo: "Acredito que Deus existe porque, blá, blá, blá"... Não poderia dizer, no entanto, que: "Acredito na existência de Deus porque é prudente acreditar". Claro que posso dizer isto, mas não posso pretender que a palavra acreditar tenha o mesmo significado quando digo:"Acredito que a água tenha duas moléculas de hidogênio para cada uma de oxigênio, porque assim atestam dois séculos de experiências científicas.
Acredito em Deus porque isto me faz sentir bem, ou porque fui doutrinado, desde a infância, a acreditar em sua existência. O fato de poder me sentir bem crendo ou se fui doutrinado a crer na existência de Deus, não me dá a menor razão para acreditar que ele exista. Isto torna especialmente evidente se substituirmos a existência de Deus por qualquer outra proposição consoladora.
Suponhamos que eu queira acreditar que exista uma pepita de ouro, mais pesada do que eu, escondida no meu quintal. Seria extraordinariamente agradável acreditar nisto, mas... Terei eu, alguma razão para acreditar que existe uma pepita de ouro pesando 100Kg dando sopa em meu quintal?.
Acreditar que Deus existe é acreditar que eu mantenho com a sua existência uma relação tal, que a sua existência é em si mesma, a razão da minha crença. Deste modo posso compreender que as crenças religiosas para serem crenças acerca da maneira como o mundo é, devem ser de natureza comprobatória como quaisquer outras.