terça-feira, 12 de agosto de 2014

O Segredo Messiânico



   
Quando examinamos as profecias das escrituras descobrimos um elenco confuso e contraditório de pontos de vistas e opiniões sobre o messias.
Ele seria um profeta escatológico que inauguraria o fim dos tempos. (Daniel 7:13-14; Jeremias 31:31-34)
Ele seria um libertador que liberaria os judeus da escravidão. (Deutoronômio 18:15-19; Isaías 49:1-7)
Ele seria um pretendente real que viria recriar o reino de Davi. (Miquéias 5:1-5; Zacarias 9;1-10)
Na Palestina do século I, quase todos os pretendentes do manto de messias cabiam em um desses paradigmas. Ezequias o chefe dos bandidos, Judas o Galileu, Simão de Pereia e Aronges o pastor. Todos modelaram-se a partir do ideal de Davi, assim como Menahem e Simão filho de Giora. Esses foram reis-messias cujas aspirações ao trono foram claramente defendidas por suas ações revolucionárias contra Roma. Outros como os milagreiros Teudas, o egípcio e o samaritano, apresentam-se como messias libertadores nos moldes de Moisés. Cada um desses candidatos prometiam a libertação de seus seguidores, do jugo da ocupação romana, por meio de algum ato milagroso. Profetas oraculares como João Batista e o Santo homem Jesus Ben Ananias podem não ter assumido abertamente qualquer ambição messiânica, mas suas profecias sobre o final dos tempos e a vinda do julgamento de Deus claramente se adaptava ao aquétipo de profeta messias presente tanto nas escrituras hebraicas como nas traduções rabínicas.
Jesus de Nazaré não foi o único milagreiro a percorre a Palestina curando enfermos e expulsando demônios. Aquele era um mundo impregnado de magia e Jesus de Nazaré era apenas mais um dos incontáveis adivinhos, intérpretes de sonhos, feiticeiros e curandeiros que perambulavam pela Judéia e Galiléia. Houve Honi e seus netos Abba Hilqiah e Hanan, Hanina bem Dosa e o mais famoso homem santo Apolônio de Tiara que pregava o conceito de um Deus supremo e  chegou a ressuscitar uma menina. Tampouco era Jesus de Nazaré o único exorcista da região. Como era uma atividade lucrativa, muitos exorcistas são mencionados nos evangelhos.(Mateus 12:27, Lucas 11:19, Marcos 9:38-40, Atos 19:11-17). Alguns famosos como Eleazar e o Rabino Simão ben Yohai. Instruções sobre o exorcismo foram encontradas até mesmo nos Manuscritos de Mar Morto.
Como já foi dito várias vezes, os evangelhos não foram escritos sobre um homem conhecido como Jesus de Nazaré que viveu na Palestina há 2.000 anos. Os evangelhos falam de um messias que os escritores viam como um ser eterno sentado à direita de Deus. Jesus de Nazaré serviu de modelo humano para Jesus o Cristo, assim como poderia ter sido Apolônio de Tiara ou Jesus ben Ananias sem prejuízo algum para o cristianismo.
Jesus de Nazaré não fizera nenhuma declaração sobre sua identidade messiânica. Na verdade ele tentou evitar qualquer referência ao título quando silencia os demônios que o reconhecem (Marcos 1:23-25, 34, 3:11-12). Tenta ocultar a identidade messiânica quando faz jurar segredo daquele que cura. (Marcos 1:43-45) Se disfarça em parábolas incompreensíveis para ocultar sua identidade. (Marcos 7:24). Vezes sem conta Jesus de Nazaré repele, evita, escapa e rejeita o título de messias concedido a ele por outros. Jesus de Nazaré não cumpriu nenhuma das exigências que fossem esperadas pelo messias.
Falou sobre o fim dos tempos, mas isto não aconteceu nem após os romanos destruírem Jerusalém e profanar o Templo de Deus.
Prometeu que Deus iria libertar o povo judeu da escravidão, mas Deus não o fez. Prometeu que as doze tribos de Israel seriam reconstruídas e a nação restaurada. Ao invés disso os romanos expropriaram a Terra Prometida, massacraram seus habitantes e exilaram os sobreviventes. Previu o Reino de Deus que nunca chegou e a nova ordem mundial que nunca tomou forma. De acordo com os parâmetros do culto judaico e das escrituras hebraicas, Jesus de Nazaré foi tão bem sucedido em suas aspirações messiânicas quanto qualquer um dos outros pretensos messias.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Santificaram a crucificação

A crucificação era uma forma generalizada e extremamente comum de execução na antiguidade, usada por persas, indianos, assírios, citas, romanos e gregos. Mesmo os judeus praticavam a crucificação, sendo esta punição mencionada várias vezes em fontes rabínicas. A razão para que o castigo fosse tão comum era seu preço. Podia ser realizado em qualquer lugar necessitando apenas de uma árvore ou trave. A tortura poderia durar vários dias sem a necessidade de um torturador. O procedimento da crucificação e o modo como a vítima seria pendurada era deixado por conta do carrasco. Alguns eram pregados de cabeça para baixo, outros tinham as partes íntimas empaladas, alguns eram encapuzados e a maioria era desnuda.
Foi Roma que tornou a crucificação a forma convencional de punição do Estado criando certa uniformidade no processo pregando os pés e as mãos numa viga. A crucificação não era, tão somente, uma pena de morte, pois era frequente que a vítima fosse executada primeiro e em seguida pregada a uma cruz. O objetivo da crucificação não era tanto matar o criminoso, mas servir como forma de dissuasão para outros que quisessem desafiar o Estado. Por esta razão as crucificações eram  realizadas em locais públicos onde a população fosse obrigada a testemunhar a cena macabra. Os crucificados eram deixados pendurados por longo tempo para que fosse devorado por cães e aves de rapina. Afinal, o ponto principal da crucificação era humilhar a vítima e assustar as testemunhas.
Os evangelhos testificam que Jesus foi crucificado ao lado de outros “lestai” ou bandidos revolucionários exatamente como ele. Seu crime foi ousar assumir ambições régias. Lucas, obviamente, desconfortável com as implicações do termo, muda “lestai” para “kakougoi”-malfeitor. Tudo o mais sobre o julgamento de Jesus deve ser interpretado através deste fato. A história deste julgamento como é apresentada nos evangelhos é cheia de contradições inconsistentes. Jesus é preso à noite, na véspera do Sabá, durante a festa do Pêssach. Ele é levado na escuridão para o pátio do Sumo Sacerdote, onde os membros do Sinédrio esperam por ele. Faz-se acariações com testemunhas e Jesus é acusado de Blasfêmia. Na manhã seguinte  o Sinédrio entrega Jesus a Pilatos para ser crucificado.
O julgamento perante o Sinédrio viola quase todos os requisitos estabelecidos pela lei judaica para um processo legal. A Mishná é inflexível a respeito deste assunto. O Sinédrio não pode reunir-se a noite. Não é permitido reunir-se durante o Pêssach. Não é permitido reunir-se às vésperas de Sabá. O julgamento deve começar com uma lista detalhada dos porquês de o acusado ser inocente antes da apresentação de qualquer testemunha. No mínimo, o que as imprecisões flagrantes demonstram é a compreensão extremamente deficiente da lei judaica e do Sinédrio pelos evangelistas.
Pode-se descartar o julgamento teatral diante de Pilatos como uma fantasia. Se Jesus, de fato, tivesse estado diante de Pilatos, teria sido algo breve e, da parte de Pilatos, totalmente desprezível. Ele pode nem mesmo ter se preocupado em tirar os olhos do seu livro de registro o tempo suficiente para olhar o rosto de mais um lestai. Imagine, então, se envolver em uma longa conversa sobre o significado da verdade.
O fato é que o Jesus histórico foi julgado por crime de sedição e seu castigo foi a crucificação. O contexto social, religioso e político da narrativa do julgamento de Jesus perante o Sinédrio foi posterior ao judaísmo rabínico de 70 d.C. Portanto, santificaram a cruz como símbolo de um ato falho suprimido por    um século.