terça-feira, 5 de agosto de 2014

Santificaram a crucificação

A crucificação era uma forma generalizada e extremamente comum de execução na antiguidade, usada por persas, indianos, assírios, citas, romanos e gregos. Mesmo os judeus praticavam a crucificação, sendo esta punição mencionada várias vezes em fontes rabínicas. A razão para que o castigo fosse tão comum era seu preço. Podia ser realizado em qualquer lugar necessitando apenas de uma árvore ou trave. A tortura poderia durar vários dias sem a necessidade de um torturador. O procedimento da crucificação e o modo como a vítima seria pendurada era deixado por conta do carrasco. Alguns eram pregados de cabeça para baixo, outros tinham as partes íntimas empaladas, alguns eram encapuzados e a maioria era desnuda.
Foi Roma que tornou a crucificação a forma convencional de punição do Estado criando certa uniformidade no processo pregando os pés e as mãos numa viga. A crucificação não era, tão somente, uma pena de morte, pois era frequente que a vítima fosse executada primeiro e em seguida pregada a uma cruz. O objetivo da crucificação não era tanto matar o criminoso, mas servir como forma de dissuasão para outros que quisessem desafiar o Estado. Por esta razão as crucificações eram  realizadas em locais públicos onde a população fosse obrigada a testemunhar a cena macabra. Os crucificados eram deixados pendurados por longo tempo para que fosse devorado por cães e aves de rapina. Afinal, o ponto principal da crucificação era humilhar a vítima e assustar as testemunhas.
Os evangelhos testificam que Jesus foi crucificado ao lado de outros “lestai” ou bandidos revolucionários exatamente como ele. Seu crime foi ousar assumir ambições régias. Lucas, obviamente, desconfortável com as implicações do termo, muda “lestai” para “kakougoi”-malfeitor. Tudo o mais sobre o julgamento de Jesus deve ser interpretado através deste fato. A história deste julgamento como é apresentada nos evangelhos é cheia de contradições inconsistentes. Jesus é preso à noite, na véspera do Sabá, durante a festa do Pêssach. Ele é levado na escuridão para o pátio do Sumo Sacerdote, onde os membros do Sinédrio esperam por ele. Faz-se acariações com testemunhas e Jesus é acusado de Blasfêmia. Na manhã seguinte  o Sinédrio entrega Jesus a Pilatos para ser crucificado.
O julgamento perante o Sinédrio viola quase todos os requisitos estabelecidos pela lei judaica para um processo legal. A Mishná é inflexível a respeito deste assunto. O Sinédrio não pode reunir-se a noite. Não é permitido reunir-se durante o Pêssach. Não é permitido reunir-se às vésperas de Sabá. O julgamento deve começar com uma lista detalhada dos porquês de o acusado ser inocente antes da apresentação de qualquer testemunha. No mínimo, o que as imprecisões flagrantes demonstram é a compreensão extremamente deficiente da lei judaica e do Sinédrio pelos evangelistas.
Pode-se descartar o julgamento teatral diante de Pilatos como uma fantasia. Se Jesus, de fato, tivesse estado diante de Pilatos, teria sido algo breve e, da parte de Pilatos, totalmente desprezível. Ele pode nem mesmo ter se preocupado em tirar os olhos do seu livro de registro o tempo suficiente para olhar o rosto de mais um lestai. Imagine, então, se envolver em uma longa conversa sobre o significado da verdade.
O fato é que o Jesus histórico foi julgado por crime de sedição e seu castigo foi a crucificação. O contexto social, religioso e político da narrativa do julgamento de Jesus perante o Sinédrio foi posterior ao judaísmo rabínico de 70 d.C. Portanto, santificaram a cruz como símbolo de um ato falho suprimido por    um século.

2 comentários:

eduardo medeiros disse...

Muito bom expor esses detalhes da crucificação. Apesar de ter uma passagem se não me engano no livro de Reis de alguém ser condenado a empalação, não sabia que os judeus usavam a crucificação. Mas de fato, aquela advertência do Deuteronômio de que era maldito quem fosse pendurado num madeiro deve ser a base para a prática.

Digno de destaque é a suavização dos condenados que morreram ao lado de Jesus para "ladrões".

O autor do Ev de Mateus parece ser o que mais tinha conhecimento das escrituras judaicas, por todas as construções que fez para apresentar Jesus como o messias esperado.

Altamirando Macedo disse...

Pois é Eduardo Medeiros. Os fiéis cristãos tomam a bíblia como o único livro detentor da verdade. Não sabem por que foi escrito, para quem foi escrito, por quem foi escrito, se suas traduções são fidedignas etc. A história escrita está ao alcance de todos os interessados. Existem outras fontes, basta buscá-las.