terça-feira, 29 de março de 2011

Mudando conceitos.

Uma jovem, amiga, diplomada, pertencente à classe burguesa e oriunda de família tradicionalmente abastada, tem como hábito esporádico fazer a felicidade de algumas crianças de classe menos favorecida oferecendo-lhes um domingo digno de crianças de sua classe social.

Levando-os ao restaurante, ao parque e depois saem passeando pela parte rica e bonita da cidade. Não é raro algum deles dizer: Olhe que casa bonita! Um dia compro uma dessa para minha mãe. Ou então: Que carrão! Quando eu crescer compro um igual. Todos têm um domingo de sonhos proporcionados pela boa ação desta minha amiga.

Agora convenhamos... O que será deste garoto quando estiver no crepúsculo de sua juventude e perceber que aquele sonho nunca se realizará? Como conduzirá esta decepção?
Será cruel ele perceber que quando se entra pela porta dos fundos ou como serviçal, nunca se senta na sala de estar ou sai pelo hall.
Cito o oposto como exemplo, por experiência própria. Descendente de família tradicional da aristocracia baiana e educado em lar cristão, desde muito cedo ouvia dizer que a minha geração mudaria para melhor o futuro do meu país. Eu acreditei muito e cheguei a sonhar que eu poderia até ser o rei do mundo. Seria o maioral, me auto denominava o bom e meus sonhos não tinham limites.

Não demorou muito tempo, talvez uma década, para eu descobrir que havia nascido no nordeste de um país de terceira categoria e que na minha heterose havia participação de três raças distintas que das quais eu havia herdado a inteligência, a honestidade e a disposição para trabalhar. Sou representante racial típico da população existente entre o Equador e o Trópico de Capricórnio do meu país.
Com o orgulho perdido não mudei de país. Mudei para um estado que me permitia sonhar.
E no Pará cultivei meus sonhos falando mal dos governos impingindo-lhes toda culpa pela minha falta de oportunidades, segurança e perspectivas. Mas continuava sonhando e assim criei e eduquei meus filhos na onerosa rede privada de ensino e os alimentei com mesa farta sem receber auxílio gás, bolsa escola, cesta básica, cheque cidadão ou PRONAF.

A destituição dos meus sonhos se deu quando elegemos um bobo para presidir nossa república de bananas e percebi que por merecimento ele era o único representante digno e ideal para liderar esta miscigenação criada por portugueses, negros e índios. Ainda por cima cristão.
Com o colapso degradável da nossa educação, diga-se falência do ensino público, perdi o que restava da minha arte de sonhar. Criei meus filhos para disputar com campeões e pelo andar da carruagem certamente irão competir com perdedores. No futuro, para proteger meus netos serei à favor do período em que freqüentarem a escola pública e receberem bolsa escola deva contar como tempo para suas aposentadorias. Se radicalizam com o bolsa reclusão, não se sentirão humilhados com o bolsa vadiar.Estou na terceira idade, como não tenho mais nada para mudar, estou mudando meus conceitos. Fui iludido, agora é tarde para lutar.
Quem nasce lagartixa no Vale do São Francisco, nunca chega a jacaré do Mississipe.

    8 comentários:

    CONVICTOS OU ALIENADOS? disse...

    Altamirando,

    Pelo menos podemos dizer com convicção. Você digitou com elegância e eloquência. O que você assevera é fato. Impossível questionar...

    Deu gosto de ler!

    Enéias

    Altamirando Macedo disse...

    Enéias,

    Obrigado pela visita.
    O que Lula fez com nossa sociedade, dando esmolas, levará algum tempo para sofrermos as conseqüências. Talvez uma geração.

    Abraços.

    Edleuza disse...

    O texto e a honestidade: gostei muito. Parabéns, Altamirando, pela volta por cima e por ter dado aos seus filhos o melhor que pôde.

    Também sou filha do Nordeste, com "quem" não tenho laços afetivos nenhum, apenas a origem; trago como herança a luta dos meus pais e a alegria de ver hoje meus irmãos e meus sobrinhos em condições bem diferentes da que tivemos.

    Quanto ao assistencialismo, vemos, com horror, o fermentar de uma geração (massa imensa!) que cresce na certeza de ser vítima, alimentada pelo veneno de receber tudo, muitas vezes, sem mérito.

    Até que o pêndulo dessa situação volte das extremidades, muita gente vai se perdendo - pior, saqueando os que ganham a vida com esforço e dignidade. Ai de nós!

    Altamirando Macedo disse...

    Edleuza,

    O pior é que estão se acostumando com as esmolas e engordando os votos de cabresto. Nós já temos em nosso DNA o gene da preguiça e o da desonestidade, herdados. O que fazem os políticos, é alimentarem esta tendência por serem integrantes desta mesma massa.
    Nossa escola se tornou um chiqueiro e para aprisionar o porco, lhe oferece comida. Os que conseguem engordar recebem um diploma.
    Inventaram cotas para o ingresso em faculdades humilhando a burra maioria de cor parda, que é a cor do Brasil, e proibiu a reprovação em escolas públicas. Isto quer dizer que qualquer idiota será portador de um diploma.
    Quem recebe cestas básicas tem ingresso automático à classe média.

    Não é atôa que temos como melhor representante, um despreparado vendedor de laranjinha.

    Não vejo brilho no futuro desta geração nem imagino o que vai fazer a diferênça.

    Eduardo Medeiros disse...

    adorei a língua do búfalo....kkkkkkkkkkkk é búfalo, né?

    quer dizer que a amiga consola a criadagem mostrando-lhe o que elas nunca vão ter? maldade...

    mas meu amigo, também é certo que quem sonha pode realizar o sonho, mesmo tendo nascido nos cafundós desse país, a despeito de mal governos; temos alguns bons exemplos por aí.

    não dá prá analisar o governo lula num comentário mas acredito que teve seus altos e baixos, aliás, como qualquer governo.

    já dizia o são betinho que "quem tem fome, tem presa".

    abraços

    Altamirando Macedo disse...

    Edu,

    A língua não e de búfalo. É de um animal oriundo de cruzamento indesejável tanto quanto nós. Mas você entendeu o significado da língua, né?... He,he,he..

    Guiomar Barba disse...

    Altamirando, meu bem amado, estava com saudade de ler um pouco de você. E taí, eu também sou nordestina fanática pela beleza das nossas terras.
    Lembro-me quando criança, escutava meu pai dizer aos meus irmãos mais velhos: vão para S.Paulo, Rio, trabalhar. kkkkkkkk Num é que os três mais velhos foram... O mais velho se deu melhor, até hoje não voltou e nem volta pra cá. Graças a Deus os filhos dele, teem prosperado bem em várias áreas da vida. O terceiro, prosperou muito mais e teve quatro filhos, mas depois de muitos anos, encontrou um assassino no caminho e deixou minha cunhada viúva com os 4 filhos pequenos. Graças a Deus meu pai já não estava vivo para sofrer esta dor.

    Mas falando da moça, só penso que apesar da aparente boa ação, ela deve ser muito burra kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Sempre falo com meus filhos que gostaria que eles tivessem escola como eu tive quando adolescente. Lembro-me que zombávamos dos que estudavam em escola pública, dizendo-lhes: PP (pagou passou).

    Você escreveu bonito e real.
    Um beijo pra você amado.

    Altamirando Macedo disse...

    Guiomar Barba,

    Eu também já estava sentindo sua falta, tanto aqui, quanto nos textos publicados na C.P.F.G.
    Obrigado pela visita.
    Abraços.