terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O Princípio da incerteza

Há as ondas e o mar. Nós somos as ondas, cada um de nós somos uma onda que olha para outra onda. Resulta disso a ilusão de sermos separados uns dos outros. As ondas nascem, existem e morrem. Elas voltam ao mar. Assim nossa percepção da dualidade e da multiplicidade da vida cotidiana é, no plano da microfísica uma ilusão.
Nosso eu não é nem masculino nem feminino, nem preto nem branco nem de qualquer outra cor. Ele simplesmente é. E os corpos que habitamos são trajes para os papéis que representamos durante a passagem por este cenário. Estes trajes e estes papéis são extremamente diferentes. Existem trajes multicoloridos nas tonalidades negras, amarelas e brancas. Miscigenadas.
Quanto aos papéis, nossa história está repleta de figuras díspares, cada um ocupando seu próprio lugar. Há os heróis, há os vilões, há os intelectuais e os cientistas. Algumas destas figuras conseguiram mudar o rumo e fazer parte da nossa história sendo respeitados, lembrados e premiados.
Há também aqueles que nem fedem nem cheiram e por nada são responsáveis. Nenhum feito, nenhuma obra de boa ou má qualidade. Passaram pela vida manobrados pela popa igual canoas, escafedendo-se por atalhos sem perceberem ou serem percebidos. Com esses a história é impiedosa. Não lhes dá a mínima, não os considera, não existem, não contam e não pesam. No entanto muitos são premiados em suas velhices com aposentadorias remuneradas.
Existe, além destes, uma categoria especial de homens. Nem heróis, nem vilões, nem cientistas, nem intelectuais. São os irrequietos, os inconformados, os autônomos; são os que não aceitam serem tangidos como gado. São os que pensam, refletem e elaboram suas idéias lançando-as ao vento por onde passam. São os que primam por liberdade no sentido mais amplo, se recusam a abdicar de suas convicções e lutam para defenderem suas idéias. São os que questionam para mudar situações não aceitando as exorbitâncias tal como se apresentam. Não importam nem temem que suas idéias sejam consideradas extravagantes, inovadoras ou contestadoras demais. Não têm a preocupação do sucesso fácil ou do reconhecimento fortuito. Querem apenas discutir idéias, dividir reflexões, confrontar teses, levantar dúvidas. Querem ter o direito de sonhar, mesmo que estes sonhos estejam anos luz a sua frente.
Neste rol estão alguns escritores, inventores, descobridores e outros que, apesar de serem estudiosos, inteligentes, dinâmicos e bem informados não conseguiram descobrir nada, inventar nada nem escrever nada.
Com estes a história é implacável e madrasta. A sociedade os reconhece, os respeita mas não os premiam e acabam na velhice sem um pau para dar num gato.

4 comentários:

A arte de ter razão disse...

O ideal de uma vida seria ser bilionário, ter saúde e paz até uns 120 anos de idade, e daí morrer durante o sono. O reconhecimento da história que vá a merda! (rs)

Luiz Claudio Santos de Souza Lima disse...

Sr. Altamirando,

Saber o que nos espera uma incerteza cada vez maior diante daquilo que acreditamos planejar. Nada mais ilusório. No entanto, é compensatório ser capaz se inquietar. Ser gado, e não ser marcado.....

"O povo foge da ignorância Apesar de viver tão perto dela E sonham com melhores tempos idos Contemplam essa vida numa cela..." Zé Ramalho

Um abraço.

Luiz

Juci Barros disse...

Sei que não é exatamente um prêmio, mas te dedico aplausos. Um ótimo texto!
http://compromissocomoacaso.blogspot.com/

Altamirando Macedo disse...

Obrigado, obrigado e muito obrigado, também, pelos aplausos. É isto que nos instiga.