sábado, 25 de julho de 2009

O combate hipócrita


Não nasci fumante, e tabagismo não é hereditário. Portanto sou fumante por opção e conheço as conseqüências inerentes.
Na minha juventude fui induzido, por modismo social, a dançar Rock in Roll, apreciar a Bossa Nova, vestir calças Saint Tropez e a fumar. Fiz parte da geração Beatles, fã de Elis, Vinícius, Dorival e Toquinho, apreciador de esportes radicais como automobilismo, alpinismo e hipismo, todos patrocinados por grandes marcas de cigarro; Dunhill, Marlboro, John Player Special. Admirava grandes estadistas como Churchill, Fidel e Mussolini e outros fumantes. Nenhum outro tipo de droga, permitida ou não, fazia parte deste contexto, por isso não me tornei maconheiro nem alcoólatra.
Por inapetência física e mudanças sociais fui forçado a abandonar alguns destes prazeres como dançar Rock e vestir calças Saint Tropez, mas continuo apreciando Bossa Nova e ainda sou fumante mesmo conhecendo suas mazelas.
Hoje a sociedade combate, acirradamente o tabagismo com todas as armas possíveis. Proibiu o ato de fumar em todos os ambientes públicos e privados fechados ou não, meios de transporte, escolas, industrias e está inibindo a contratação de fumantes até em empresas privadas em nome dos bons costumes. Mesmo discriminando o usuário do fumo como causador de males sociais, continua financiando sua plantação e ainda não fechou as portas da Sousa Cruz.
O mesmo tratamento não é dispensado aos amantes dos licores de Baco.
Todos os políticos, empresários, religiosos e autoridades conhecem os efeitos do alcoolismo.
Não existe o alcoólatra passional mas, no transito, o alcoolizado mata abstêmio e crianças. Nas delegacias de mulheres existem numerosas queixas de esposas não alcoólatras espancadas por seus maridos bêbados.
Há muita dissolução de casamentos causada por alcoolismo. Algumas por falta de proventos inerentes ao fato.
O alcoolismo sempre está associado a prejuízos materiais, degradação moral e desvio de caráter. O alcoólatra não pode ser considerado um doente, assim como o fumante também não é. Mas não lhes imputaram a mesma pena. O alcoólatra é socialmente aceito.
Há dois extremos. Não existe associação de fumantes anônimos mas existem faculdades de ensino preparando conhecedores de bebidas no intuito de informar aos leigos quais tipos harmoniza com isto ou aquilo e em qual momento ou ocasião deve ser apreciada. Algumas destas garrafas atingem valores estratosféricos se tornando objetos de curiosidade e desejo.
Há algum tempo ficou proibida a propaganda de cigarro através de todos os meios de comunicação, obrigando também, o fabricante a imprimir nos rótulos de seus produtos uma série de malefícios na intensão de coibir seu uso, e surtiu efeito.
Estes mesmos meios de comunicação estão fazendo propaganda de bebidas alcoólicas em horário nobre, com apelo sexual, explorando a alta taxa de testosterona latente nos jovens induzindo o consumo de álcool.
Esta sociedade que instiga se torna hipócrita e amoral quando se esquece que é dirigida por um alcoólatra e castiga severamente condutores de veículos flagrados no trânsito com qualquer teor de álcool no sangue. Um bêbado não pode guiar um carro,mas pode conduzir um País.
A próxima geração não será fumante nem alcoólatra mas corre sério risco de se tornar GLS.
Aí seremos obrigados a presenciar beijos, abraços, afagos e outras manifestações de prazeres ainda inaceitáveis. É evidente que existem inúmeros comportamentos inatacáveis em privados, apesar de serem inofensivos, e que banimos na maioria dos espaços públicos pelo simples fato de representarem um incômodo para os outros. Cozinhar na calçada, cortar o cabelo num avião de passageiros ou levar a jibóia de estimação ao cinema são alguns exemplos de liberdades privadas que não se traduzem em virtudes públicas.
Existem prazeres impagáveis que se tornam vícios discriminados sem serem compulsivos e só são apreciados por aqueles cuja sensibilidade conseguem distinguir as diferenças entre o fazer sexo para procriar e o prazer do ato, comer para saciar a fome ou se deliciar do fato.
Apreciam as delícias de um bom vinho, um bom charuto, um chocolate ou mesmo um cafezinho com seus aromas e seus sabores. Usam suas papilas gustativas, seus olfatos e seus hormônios fazendo jus às bênçãos dada mesmo sabendo que seus vícios prazerosos são, também, maléficos a sua saúde. São condenados e injustiçados por haverem danificados seus órgãos ainda em vida, mesmo que esses velhos órgãos não sirvam para transplantes.
Mas, há aqueles que preferem morrer como um padre, com o câncer da abstinência. Passaram pela vida, não viveram e a morte não quis saber da qualidade de seus órgãos. Foram socialmente corretos, mas levaram o farelo do mesmo jeito.
A influência da fé nas nossas leis penais tem um preço considerável. Na realidade, há muitas substâncias cujo consumo leva a estados transitórios de prazer imoderado e, ocasionalmente, também podem conduzir a estados transitórios de indigência, mas não há dúvida de que o prazer é a norma. De outro modo os seres humanos jamais teriam sentido o desejo continuado de tomar regularmente, há milênios, estas substâncias. Quanto às proibições na sua totalidade, o único princípio organizador que parece fazer sentidos entre elas é que qualquer coisa que possa ofuscar radicalmente a religiosidade e a sexualidade reprodutiva como fonte de prazer seja considerada ilegal. As preocupações com a saúde dos cidadãos, ou com sua produtividade, são meros pretextos neste debate, como a ilegalidade dos cigarros comprova.
Claro que o problema destas substâncias é justamente o prazer, já que a religiosidade e o prazer nunca se deram bem.
Uma pessoa que acredita que Deus nos observa do lado de lá das estrelas defenderá sempre que punir pessoas pelos seus prazeres privados é algo de perfeitamente razoável. Talvez devêssemos encontrar melhores motivos para privar nossos vizinhos da sua liberdade, dada a magnitude dos verdadeiros problemas que enfrentamos. Nossa guerra ao pecado é tão clamorosamente insensata que se torna difícil comentá-la com bases racionais.
Se é certo que existe uma oposição entre a razão e a fé, veremos que o mesmo não se pode dizer da razão e do amor ou da razão e da espiritualidade. Todas as experiências que um ser humano possa ter admitem uma discussão racional sobre suas causas e conseqüências ou sua ignorância a esse respeito. Embora isto nos deixe uma margem considerável para o exótico, não deixa, porém o menor espaço para a fé.
Não é por acaso que as pessoas de fé tendem a restringir a liberdade dos outros. Não percebem que suas proibições contra o prazer não tem nada a ver com a proteção do próximo relativamente a ameaças físicas ou psicológicas, mas sim com a preocupação de não despertar a ira divina.
Este impulso tem menos a ver com a história da religião e mais com sua lógica, por que a própria idéia de privacidade é incompatível com a existência de Deus. Se Deus tem o dom de ver e saber todas as coisas e continua a ser uma criatura provinciana a ponto de se escandalizar com certos comportamentos sexuais ou estados do cérebro como o prazer, então aquilo que as pessoas fazem em público na sua individualidade ou na privacidade de suas casas, embora não tenham a mais leve implicação no seu comportamento social, continuará a ser uma questão de preocupação pública para as pessoas de fé e hipócritas.
Parei de fumar a cinco meses por vontade própria, não por imposição.

Um comentário:

Anônimo disse...

A calhar, esta postagem.